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Carne/Produtos Animais “Felizes”:
Um Passo na Direção Certa ou “Um Ponto
de Acesso Mais Fácil” de Volta a Comermos
Animais?
Gary L. Francione
© 2007 Gary L. Francione
Um artigo recente da revista BBC
News Magazine acaba
de chamar minha atenção. Cita a professora
escolar Rachael Deacon: “Eu pago mais caro
para comprar comida mais saudável. Não
quero que meus animais sejam abatidos de maneira
horrível, nem que tenham uma vida horrível”.
Sem levar em conta que a Ms. Deacon pensa que existe
um abate que não seja horrível, será que
sua preocupação geral é um caso
de sucesso para os defensores dos animais que promovem
a carne “feliz” como um passo incremental
rumo a um mundo com menos sofrimento e morte?
Não. Ela foi vegetariana durante 10 anos, mas agora
voltou a comer carne.
Deacon é uma “onívora conscienciosa”.
Ela é um exemplo do problema da abordagem “carne
feliz” que tomou conta do movimento pelos animais.
Grandes corporações bem-estaristas criaram
selos como o Certified
Humane Raised & Handled label [Certificado
de Criação e Manuseio Humanitários]
e o Freedom
Food label [Comida
da Liberdade] para fazer os consumidores se sentirem melhor
quanto a comer animais criados e mortos de maneiras que,
se aplicadas a humanos, seriam consideradas, sem sombra de
dúvida, tortura. Defensores dos animais dão prêmios
a planejadoras de matadouros e elogiam
publicamente cadeias de supermercados que
vendem corpos criados e abatidos de forma supostamente humanitária,
além de outros produtos animais “felizes”.
Essa abordagem não leva as pessoas, incrementalmente, à direção
certa. Ao contrário, lhes dá uma razão
para andar para trás. Concentra-se no tratamento do
animal em vez do uso do animal e dá às
pessoas a ilusão de que regulações bem-estaristas
estão de fato resultando em uma proteção
significativa dos animais.
O artigo da BBC “Some
sausages are more equal than others” [Algumas
lingüiças são mais iguais do que outras]
ilustra mais o problema. A repórter Megan Lane nos
conta que foi vegetariana durante 14 anos, mas que “começou
a comer carne de novo, porém só de animais
que desfrutaram uma vida feliz antes de ser abatidos”.
Diz ela que quando se tornou vegetariana, não era
fácil encontrar “a carne orgânica e a
de animais criados livres de jaulas apertadas”, e agora é.
Lane descreve a aquisição da carne orgânica
e a de animais criados livres de jaulas apertadas como um “mercado
de nicho em que o produto é comprado tipicamente por
aqueles que decidem esbanjar dinheiro para resolver um problema”.
Ela observa que as vendas da carne “feliz” subiram
14% em relação ao ano passado na Grã-Bretanha,
mas ainda representam apenas 1,4% das vendas de carne vermelha.
Ela cita Chris Lamb (sem trocadilho, aqui*) da Meat
and Livestock Commission [Comissão
para a Carne e os Animais de Criação], que
diz que “se a pessoa for vegetariana por razões éticas,
o fato de haver agora estabelecimentos vendendo produtos
de fazenda orgânicos, ou provenientes de animais criados
ao ar livre, que fazem a coisa toda parecer mais aceitável,
dá a essa pessoa um ponto de acesso mais fácil
de volta”.
Lane também cita um porta-voz da Vegetarian
Society [Sociedade
Vegetariana] que reconhece que animais orgânicos e
criados livres de jaulas apertadas também são
mortos, mas que afirma que “muitos dentre os 3 milhões
de vegetarianos na Grã-Bretanha desistem da carne
por causa da crueldade e das práticas lastimáveis
envolvidas na criação intensiva”. A Vegetarian
Society diz: “Não estamos criticando os métodos
mais responsáveis que fazendeiros orgânicos
empregam para ganhar a vida”. A notícia é seguida
por vários comentários de leitores, muitos
dos quais exaltando as virtudes da carne “criada eticamente”.
Não é um pouquinho irônico que um representante
da Comissão para Carne e Animais de Criação
entenda perfeitamente o que está acontecendo? Carne “feliz” faz “a
coisa toda parecer mais aceitável”. Carne “feliz” significa
mais comedores de carne e mais animais abatidos. Por que
os defensores dos animais não enxergam isto? É realmente
muito simples.
O artigo de Lane reflete a realidade de que promover a carne “feliz” não
está levando as pessoas a uma direção
positiva. De fato, tudo o que essa promoção
está conseguindo é fazer os poucos privilegiados
que podem comprar carne orgânica em estabelecimentos
mais caros se sentirem moralmente superiores, e dar, a muitas
pessoas, uma desculpa para elas voltarem a comer carne e
outros produtos animais.
E não é apenas o artigo de Lane que oferece
evidência do retrocesso provocado pelo movimento pela
carne “feliz”. Em um artigo em Meatingplace [Ponto
de Encontro da Carne], uma revista da indústria da
carne cita a proeminente nutricionista Marion Nestle: “Agora,
até vegetarianos de carteirinha e de longa data estão
comendo carne porque a indústria respondeu às
condições às quais eles mais se opunham.
Isto apresenta uma importante oportunidade para crescimento,
porque os consumidores pagarão mais por esses produtos”.
Em outro artigo
recente, somos informados sobre Maria Humel,
que “tem um fraco por animais — e por crianças
que pedem galinha à parmeggiana e deditos de galinha”. Humel
faz compras em um estabelecimento que vende produtos feitos
com carne, aprovados pela Humane Farm Animal Care [Cuidado
da Fazenda Animal Humanitária] e seus sócios,
a Humane Society of the United States (HSUS) [Sociedade Humanitária
dos EUA], a American Society for the Prevention of Cruelty
to Animals (ASPCA) [Sociedade Americana pela Prevenção
da Crueldade contra os Animais], a
Animal People [Gente pró Animais] e outros,
com o selo Certified
Humane [Certificado de Produto Humanitário].
Esse selo “ajuda a equilibrar a compaixão dela
com o consumo das crianças”. Humel explica: “Isso é muito
importante para mim porque eu realmente deveria ser vegetariana”.
Em outras palavras, ela deveria ser vegetariana se “o
grupo pelos direitos animais que criou o selo” não
estivesse lá para pôr um selo de aprovação
ao seu consumo de produtos animais.
No mesmo
artigo, o executivo-chefe do D’Agostino’s,
uma rede de supermercados com matriz em Nova York, diz que “as
vendas de alguns de seus produtos subiram bastante, desde
que a empresa começou a promover o logo ‘certificado
humanitário’, há dois anos. O estabelecimento
vende mais de 35 alimentos com o certificado humanitário,
incluindo iogurte, leite, galinha, manteiga, ovos, porco
e vitela — uma carne cujas vendas subiram mais de
25% desde que o estabelecimento começou a vendê-la
com o selo”.
Está claro que o movimento pela carne/produtos animais “felizes” não
está levando, incrementalmente, ao veganismo: está incentivando o
consumo de animais por gente que caiu na conversa absurda
de que nós podemos “consumir com consciência”.
Esses “onívoros conscienciosos” acreditam,
realmente, que a regulação bem-estarista está fazendo
um diferença verdadeira e palpável na vida
desses animais? Se sim, estão se iludindo. Não
há qualquer diferença significativa entre produtos
animais obtidos da maneira convencional e produtos animais
obtidos de criações livres de jaulas apertadas,
ou orgânicas, ou tratadas de forma “humanitária” — exceto
que estes últimos produtos põem mais dinheiro
nos bolsos das corporações. Excelentes informações
sobre este assunto se encontram em The
Free-Range Myth [O
Mito do “Livre de Jaulas Apertadas”] no sítio
da The
Peaceful Prairie [A Pradaria Pacífica],
um santuário abolicionista de animais que tem uma posição
declarada quanto a carne e produtos animais "felizes".
The Free-Range Myth consiste de duas apresentações — uma
que explica por que os
ovos de galinhas livres de gaiolas de
bateria dão no mesmo que ovos de galinhas presas em
gaiolas de bateria e uma que explica por
que criação “humanitária” é um
oxímoro . Você pode pedir
ambos os folhetos impressos à Peaceful Prairie, ou
carregar ambos os arquivos em PDF ( ovos, criação)
diretamente do sítio do santuário. Eu super-recomendo
o uso destes dois folhetos aos defensores de animais que
quiserem um bom material educativo vegano/abolicionista;
os folhetos são excelentes e deixam claro que consumo
moralmente aceitável de corpos ou produtos animais simplesmente
não existe. The Free-Range Myth e os outros materiais
impressos que a Peaceful Prairie também disponibiliza
para carregar oferecem exemplos de primeiríssima do
que eu quero dizer com
educação
vegana/abolicionista criativa.
A culpa pelo entusiasmo com relação à carne
e outros produtos animais “felizes” é toda
daqueles defensores dos animais que apóiam essas regulações
e realizam campanhas dizendo que elas realmente fazem uma
diferença, e que ignoram que é o uso do
animal, e não o tratamento dado a ele, a
questão moral fundamental.
Se Peter Singer, o chamado “pai do movimento pelos
direitos animais”, diz que é moralmente
aceitável ser um “onívoro consciencioso”,
ou ridiculariza os veganos coerentes dizendo que eles são “fanáticos”,
então as pessoas — mesmo as que se importam
com os não-humanos — vão achar aceitável
comer carne e outros produtos animais “felizes”.
Se Tom Regan, que contesta a alegação de paternidade
de Singer, mas, junto com Singer,
celebriza John
Mackey, o magnata da carne “feliz” dos supermercados
Whole Foods, então não admira que tanta gente “pró animais” pense
que comer produtos animais “felizes” é aceitável
e é também uma boa estratégia para se
seguir.
Em 25 de janeiro de 2007, a Smithfield
Foods, uma grande produtora de carne não-humana, anunciou que,
ao longo dos próximos dez anos, vai eliminar gradualmente
as celas de gestação para porcas e usar cercados
mais espaçosos para grupos de animais. Esse anúncio
ocorreu em seguida à campanha contra as celas de gestação
feita pela HSUS,
o Farm
Sanctuary
[Santuário
para Animais de Fazenda] e outros grupos bem-estaristas.
Essa campanha custou bem mais de 1.6 milhões de dólares.
Conforme discuti em meu ensaio anterior, A “Triumph” of
Animal Welfare? [Um
Tiunfo do Bem-estar Animal?], defensores dos animais argumentaram
que, segundo demonstraram alguns estudos, os produtores de
porcos obteriam mais
lucro trocando seu
sistema de alojamento de animais por um alternativo.
Em resposta ao anúncio da Smithfield,
Wayne Pacelle, presidente e executivo-chefe da HSUS, proclamou que “[uma]
revolução está em andamento na indústria
do porco”. Ele
afirmou: “Em termos
de tratamento humanitário de animais no setor do agronegócio,
acho que não ocorreu nada mais importante do que isto”.
Seguiram-se outras avaliações hiperbólicas
semelhantes, feitas por outros adeptos da regulação
bem-estarista. Por exemplo, Erik Marcus (vejam só)
qualificou a iniciativa da Smithfield de “uma
notícia espectacular”.
Que mensagem isso passa às pessoas? Isso passa a mensagem
de que existe — ou em dez anos existirá — uma
melhora significativa no tratamento dado às porcas
produzidas pelas fazendas Smithfield. Pacelle usa a palavra “revolução”.
Isso passa a mensagem de que os animais da Smithfield terão “vidas
felizes”. Isso reforça a idéia de que
consumidores compassivos já podem descartar sua obrigação
moral para com os não-humanos, comprando os corpos
mortos dos animais da Smithfield.
Em resumo, o anúncio da Smithfield é, de fato, “uma
notícia espetacular” para a Smithfield
Foods, que vai desfrutar de maior produtividade e lucro,
e poderá cobrar uma quantia extra para que consumidores
elitistas possam continuar a comer animais e se sentir bem
consigo mesmos. Também é “uma notícia
espetacular” para a HSUS, o Farm Sanctuary e os outros
bem-estaristas, que farão questão de proclamar
esta grande “vitória” — esta “revolução”— em
uma seqüência infindável de promoções
e eventos para arrecadar fundos, enquanto disputam a tapas
o crédito por esta “notícia espetacular”,
esta “revolução”.
Mas, para os não-humanos, é uma triste derrota.
O fato de que defensores dos animais tenham gasto uma colossal
soma de dinheiro em uma campanha que só fará as
Megan Lanes, Rachael Deacons e Maria Humels da vida pensarem
que
tudo bem comer corpos mortos de animais e produtos
animais porque esses animais terão tido uma “vida
feliz” é, na minha opinião, assustador.
Não há a menor sombra de dúvida de que
um investimento em educação vegana teria sido
um uso melhor de recursos. Por várias razões,
um punhado de novos veganos teria significado mais — tanto
a longo quanto a curto prazo — do que uma década
de eliminação gradual de celas de gestação
para porcas e a introdução de um sistema alternativo
de alojamento cujos detalhes sequer são conhecidos
ainda. Lembre-se de que a “proibição” da
cela de gestação na Flórida se
aplica a cercados onde uma porca é mantida durante
a “maior parte de qualquer dia”. Ela ainda
permite o uso da cela de gestação sob certas
circunstâncias, como para menos do que “a maior
parte de qualquer dia”, o período imediatamente
anterior ao parto, e por um tempo “não maior
do que o razoavelmente necessário” para “propósitos
veterinários”. A “proibição” da
Flórida requer apenas que a porca consiga se virar “sem
ter de tocar qualquer lado do cercado”. Eu calculo
que vai acontecer a mesma coisa com a Smithfield Foods. Quer
dizer, uma proibição verdadeira das celas de
gestação não faria uma diferença
significativa na vida e na morte, ainda assim horríveis,
das porcas. Mas a “proibição” não é nem
mesmo uma proibição. Como a maioria das regulações
do bem-estar é, em primeiro lugar, um instrumento
de marketing, e só será respeitada na medida
em que trouxer benefício econômico.
Abolicionistas nunca
deveriam promover o consumo de animais, por mais “humanitário” que
seja, particularmente dado que promover a carne e os produtos
animais “felizes” incentiva as pessoas com preocupações éticas
a tomar parte na ilusão de que podemos realmente dar
uma “vida feliz” aos animais que comemos. Sem
levar em conta que a escravidão animal não pode
ser justificada, independentemente de quão “humanitária” ela
seja, a realidade é que a criação livre
de celas apertadas e a fazenda “humanitária” envolvem
um sofrimento colossal. Essas fantasias românticas sobre
o maravilhoso mundo dos animais na “fazenda familiar” são
apenas isso — fantasias. Até a melhor das “fazendas
familiares” é um lugar terrível para os
não-humanos.
Imagine dois proprietários de escravos. O primeiro
bate vinte vezes por semana em seus escravos. O segundo,
dezenove. Existe qualquer diferença significativa
entre eles dois, que justifique a idéia de que o segundo
tem um comportamento moralmente louvável? Deveríamos
considerar que bater nos escravos dezenove vezes por semana
seja uma indicação de que “[uma] revolução
está em andamento”? Deveríamos
considerar que um golpe a menos é uma “notícia
espetacular”?
Se sua resposta às perguntas acima for “não”,
então você não pode, consistentemente,
apoiar a posição de Singer, HSUS, Farm Sanctuary,
Vegan Outreach, PETA e o resto do movimento bem-estarista
pela carne “feliz”.
É “melhor”, claro, bater nos escravos
dezenove vezes por semana do que vinte. Mas isso não
torna o fato de bater nos escravos dezenove vezes por semana
uma coisa moralmente aceitável, um indício
de que “[uma] revolução está em
andamento”, ou uma “notícia espetacular”. Não
torna a escravidão — por mais “humanitária” que
seja — moralmente justificável.
Temos tempo e recursos limitados. Cada centavo e cada segundo
gastos em tornar a exploração animal mais “humanitária” são
menos um centavo e menos um segundo gastos em educar
sobre a única coisa que importa para a abolição:
o veganismo. E todos os centavos e todos os segundos gastos
na exploração “humanitária” fazem
pouquíssimo, se é que fazem alguma coisa, pelos
animais que estão sofrendo agora. E mais: ao promover
a mentira descarada de que um animal criado numa fazenda
orgânica, ou livre de celas apertadas, tem uma “vida
feliz”, a abordagem bem-estarista encoraja o público
a continuar a consumir animais e perpetua o paradigma especista
que deixou os humanos e os não-humanos no pé em
que estão agora, para começo de conversa.
De uma coisa podemos estar certos: uma vez que aceitemos
o absurdo de que o anúncio da Smithfield Foods é um
sinal de uma revolução “em andamento”,
ou uma “notícia espetacular”, a verdadeira
revolução — a rejeição
não-violenta à exploração animal
em favor da abolição, e o reconhecimento do
veganismo como o apoio pessoal à abolição — nunca
chegará.
* Lamb significa cordeiro. (N.da T.)
Fevereiro 2007
Tradução: Regina Rheda
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