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Crianças vegetarianas
Bom, a criança vem crescendo e já não
pode mais ser chamada de bebê. Pega comida no prato da
mãe, sai com a titia, com a vovó, já-já vai
para a creche, a escolinha, a casa dos amiguinhos. E aí?
Como mantê-la vegetariana num mundo de creófagos?
O meu primeiro conselho é que os pais examinem-se profundamente
quanto à sua certeza de que o vegetarianismo é a
melhor opção — primeiro para si mesmos,
depois para os filhos. Quem se propõe a educar uma criança
precisa ter alguma segurança de que está fazendo
o melhor para ela. Ainda que depois se mude de idéia,
na hora de cada decisão é preciso tomá-la
com firmeza, principalmente quando se trata de uma decisão
tão importante quanto adotar hábitos alimentares
diferentes — hábitos estes tão profundamente
arraigados na nossa cultura que muita gente se ofende ao ver
um vegetariano almoçar...
Digo tudo isso porque nós, vegetarianos, enfrentamos
muita oposição quando o filho vai se largando
dos nossos braços e entrando no mundo. Esta é a
sina de todos os que adotam trajetórias diferentes da
maioria, seja na alimentação, na religião,
nos hábitos de lazer. E a gente precisa estar preparado
e disposto a conviver com isso e a enfrentar as situações
mais ou menos desagradáveis que com certeza acontecerão.
E aí? Como manter o filho vegetariano se a vovó,
a titia, a babá, a professora, a mãe do coleguinha
todas acharão um absurdo uma criança cujos pais,
cruéis ou desinformados, impedem que coma carne? Afinal,
o fantástico/o jornal nacional/o globo repórter
mostram um médico/nutricionista/professor que diz que
criança TEM de comer carne, senão fica desnutrida,
senão sofre danos no cérebro, nos órgãos!
É preciso conversar com as pessoas próximas. É preciso
deixar claro para elas como é importante a decisão
que tomamos para nós e nossos filhos. Isso não
tem receita. Cada um e cada relação que estabelecemos
com cada um são diferentes. É por isso que precisamos
ter segurança da decisão que tomamos, para passar
esta segurança às pessoas que se relacionarão
com os nossos filhos. Nem sempre será possível
mandar ou conciliar. Na maioria dos casos, teremos de CONVENCER.
E para convencer, é necessário estar convencido.
Depois, é preciso conversar com o próprio filho.
Quando a criança começa a se relacionar com outras
pessoas fora do lar ou mesmo com pessoas dentro do lar que
comem de forma diferente dela, vai perguntar por quê.
Mais uma razão para termos segurança da opção
que fizemos. A criança precisa sentir como é importante
para nós sermos vegetarianos. E isso não se consegue
com palavras, só com atitudes.
E, se além de não dar carne ao seu filho, você ainda
decidir não lhe dar açúcar refinado, balas,
chocolates, danoninhos, biscoitinhos, quissucos, cocacolas
e outras maravilhas da “alimentação” infantil,
prepare-se, que o chumbo vai ser grosso. Eu que o diga.
Agora, algumas dicas práticas:
Para uma criança, qualquer criança, vegetariana
ou não, é importante que a alimentação
cotidiana seja rica e saborosa. Rica significa: variada, com
nutrientes de todo tipo. E é importante que a comida
das crianças seja suficientemente calórica. Se
você usa cereais integrais, leguminosas, legumes, verduras
e frutas regularmente, provavelmente será. Enriqueça
as saladas dos filhos com bom azeite, castanhas ou nozes picadas,
tahine (molho árabe de gergelim, muito rico em gorduras
de excelente qualidade e proteínas). Sirva leguminosas
variadas – feijões de várias cores, grão
de bico, ervilha em grão, lentilha. Prepare os legumes
com pouca ou nenhuma água (para lhes preservar o sabor),
corte e cozinhe cada dia de um jeito diferente (em tirinhas,
em rodelas, estrelinhas, no vapor, refogadinho com cebola ou
cebolinha, no forno). Criança gosta de comida colorida
e variada.
Faça-lhes também sanduíches com tahine,
misso (pasta japonesa de soja fermentada, salgada, saborosa
e muito nutritiva), tirinhas de cenoura crua, alface picadinho
(grudarão no tahine e provavelmente não farão
muita lambança). Prepare petiscos fáceis como
bolinhos de arroz (arroz integral – pode misturar um
pouco de misso ou sal e cebolinha picada, para dar mais gosto – amassado
nas mãos e frito em óleo ou assado no forno),
bolinhas de banana com aveia (facílimas de fazer: amasse
bananas maduras, misture bastante aveia, forme bolinhas, leve
ao forno em tabuleiro levemente untado), biscoitões
de aveia (misture aveia e água em partes iguais, um
pouco de sal, deixe descansar uns dez a vinte minutos, despeje
aos poucos numa frigideira ou chapa em fogo baixo, espere assar
e soltar – fica crocante, uma delícia).
Eu fazia muito bolo de farinha de arroz:
farinha de arroz integral (toste o arroz na frigideira seca
até ficar
dourado e cheirando bem, deixe esfriar, bata em pequenas quantidades
no liquidificador ou use um moedor); coloque a farinha – misturada
com sal ou açúcar mascavo, a gosto – numa
fôrma com buraco levemente untada com óleo, ponha água
até um dedo acima da farinha, deixe a farinha absorver
a água toda; tampe a fôrma e asse em banho-maria,
no fogão ou no forno. Estando seco e assado, desenforme
e sirva.
Tudo isso, com mais uma fruta, serve
para o lanche ou a merenda da escola e você pode enfeitar – juntar castanha
de caju picada, passas de uva, banana-passa picadinha, pedacinhos
de maçã. Use a sua criatividade.
E os almoços, jantares e festas em família?
Um conselho: almoce, jante, faça uma boa refeição
LOGO ANTES de sair de casa. Assim, com menos fome, a criança
(e você também) não vai ficar tentada a
se empanturrar de coisas que a gente preferiria que ela não
comesse. Outro conselho: se a situação permitir,
contribua com alguns pratos – além de você e
seu filho terem o que comer, sempre se consegue mostrar aos
outros que, sem carne, preparam-se refeições
deliciosas.
Há, nos livros e na internet, muita receita de comida
vegetariana que agrada às crianças e até para
quem segue uma dieta mais naturista, sem industrializados nem
açúcar refinado, dá para preparar festas
de aniversário capazes de deixar coleguinhas e mães
deliciados. Quem me abriu os olhos para isso foi a Sonia Hirsch,
com o seu “Sem açúcar, com afeto” – esta
autora também tem um livrinho só sobre alimentação
para crianças. Como dizem os americanos com os seus “disclaimers”:
não tenho nenhuma relação nem ligação
com a Sonia e não recebo comissão sobre as vendas
dos seus livros; sou apenas uma consumidora satisfeita.
Beatriz Medina
Quase 30 anos de vegetarianismo
e-mail: beatriz@guiavegano.com
Veja
também "Crianças Vegetarianas (parte I)"
Veja
também: "Dicas de como fazer papinha para o bebê"
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